Fernando Távora

Fernando Távora (1923-2005) é um dos fundadores da chamada “Escola do Porto” e uma das grandes referências da história da arquitetura portuguesa. 

Percurso

Bio

Fernando Távora nasce no Porto em 1923, no seio de uma família nobre.  Faz a sua formação na Escola de Belas Artes do Porto. Frequenta, primeiro, o Curso Especial de Arquitetura e, depois, o Curso Superior de Arquitetura, que conclui em 1952.

Casa sobre o Mar - Távora“Casa Sobre o Mar”
Foz do Douro, 1952
Projeto para o Concurso para a Obtenção do Diploma de Arquiteto (CODA) – não construído


Fotografia: Arquivo UPorto

 

Em 1947, publica o ensaio “O problema da Casa Portuguesa”, onde fala sobre a necessidade de inventariação da arquitetura popular portuguesa.

Percurso profissional

No início da sua carreira Fernando Távora trabalha como técnico da Câmara Municipal do Porto, onde tem a cargo o projeto de bairros sociais, como por exemplo o Bairro de Ramalde. Trabalha igualmente como consultor da Câmara de Gaia,  da Comissão de Coordenação da Região Norte e do Gabinete Técnico Local de Guimarães.

Posteriormente, abre o seu próprio atelier, no qual trabalhou Álvaro Siza enquanto estudante e de quem se torna grande amigo.

Atividade docente

Fundador da chamada Escola do Porto [Escola do Porto], foi professor de Álvaro Siza Vieira, Alcino Soutinho [Alcino Sotinho], Eduardo Souto de Moura [Eduardo Souto de Moura], bem como, de várias gerações de arquitetos, até à sua aposentação em 1993.

A sua carreira docente está ligada a várias institituições de ensino, designadamente: Escola Superior de Belas Artes do Porto (ESBAP); Faculdade de Arquitetura da Universidade do Porto (FAUP); Departamento de Arquitetura da Universidade de Coimbra (DARQ-UC), onde foi homenageado com a atribuição do Doutoramento Honoris Causa em 1993 e a Escola de Arquitetura da Universidade do Minho (EAUC).

Escola de arquitetura de Guimarães - TávoraEscola de Arquitetura da Universidade do Minho, projeto de Fernando Távora

Participação nos CIAM

Entre 1951 e 1959 participa, como delegado português, nos Congressos Internacionais da Arquitetura Moderna (CIAM). Assim, tem a oportunidade de conhecer os mestres da arquitetura moderna, como Le Corbusier. Esta participação proporciona-lhe desenvolver igualmente um pensamento crítico sobre a arquitetura portuguesa da época, de cariz supostamente nacionalista e ligada ao regime salazarista.

Entretanto, em 1955, integra a equipa responsável pelo “Inquérito à Arquitectura Regional Portuguesa”. Este estudo sobre a arquitetura em Portugal foi promovido pelo Sindicato Nacional dos Arquitetos e publicado em 1961.  Estava dividido por regiões, cabendo então a Távora a região do Minho e Alto Douro.

A importância de viajar

Viagem à Grécia, 1976. Alexandre Alves Costa, Sérgio Fernandez, José Grade, Alcino Soutinho, Fernando Távora e Álvaro Siza, no Parthenon.

Fotografia: DR em publico.pt

 

Ao longo de toda a sua vida Távora fez inúmeras viagens. Pode assim conhecer de perto diferentes “arquiteturas”, feitas em tempo, espaços e culturas distintas. Távora considera que um bom conhecimento da história da arquitetura está na base de um bom projeto. Portanto, nada melhor do que poder ver de perto os edifícios que fazem parte da história da arquitetura. É então essa importância de viajar que procura incutir nos seus alunos e colaboradores. Em 1960, ganha uma bolsa da Fundação Gulbenkian para viajar para os EUA e Japão.

Arquitetura

A influência do Modernismo

Nas suas primeiras obras, como por exemplo, no desenho da Unidade Residencial de Ramalde, de 1952,  há uma clara influência do modernismo. Neste projeto a disposição paralela dos blocos habitacionais, separados por zonas verdes e tirando partido de uma boa orientação solar, são exemplos da aplicação dos princípios formulados na Carta de Atenas.

Outro traço comum à arquitetura moderna internacional é o uso do betão aparente [O uso de betão na arquitetura]. Este material é usado, por exemplo, no Mercado de Vila da Feira e no Pavilhão de Ténis da Quinta da Conceição.

A importância do sítio

Mas, embora a sua arquitetura se baseie nos princípios do modernismo, Távora vai mais longe dando especial importância ao sítio, à história, às preexistências e à materialidade da arquitetura local.

Assim, modernidade e história fundem-se dando lugar a uma arquitetura que, não deixando de ser moderna, é verdadeiramente integrada no sítio. O seu filho, igualmente arquiteto, Bernardo Távora, destaca a capacidade que o pai tinha de se tornar invisível nas suas obras.

Refira-se, como exemplo, o Mercado de Santa Maria da Feira.  O mercado detém um desenho assumidamente moderno, onde se destacam as palas inclinadas que formam a cobertura. Contudo, o edificado procura relacionar-se com a envolvente e aproveitar a morfologia do terreno.

O pavilhão de ténis da quinta da Conceição, é outro exemplo em que  combina traços do movimento moderno, como a planta em open space e planos soltos, com elementos construtivos tradicionais, como por exemplo asnas de madeira e cobertura em telha.

Távora defende igualmente que, se possível, a arquitetura deve ser feita para as pessoas. Devendo o cliente ter portanto um papel participativo.

Das casas que Távora projetou a mais emblemática é a Casa em Ofir. Fernando Távora define-a como um composto, semelhante aos da química. Assim, a Casa em Ofir é composta por: a família que iria habitar a casa; as características naturais do terreno; a presença de vento forte; os materiais locais; a falta de especialização da mão-de-obra local; e, por último, a cultura do arquitecto.

A importância da preservação e reabilitação do património

Távora desempenhou um papel essencial na introdução da noção de valor do património histórico e da necessidade da sua preservação e reabilitação. Assim, defende que a reabilitação não deve ser uma intervenção isolada mas abranger conjuntos, como os centros históricos. Torna-se, portanto, pioneiro na área da reabilitação urbana.

Cite-se como exemplo paradigmático a requalificação do centro histórico de Guimarães, de que Távora é autor, e que é classificado como Património da Humanidade pela UNESCO, em 2001.

Távora intervém igualmente em edifícios históricos, como por exemplo, a Pousada de Santa Marinha em Guimarães, o Palácio do Freixo e o Museu Soares dos Reis, ambos no Porto.

Outro exemplo é o restauro da Casa da Rua Nova em Guimarães. Trata-se de uma construção típica vimaranense medieval adulterada ao longo dos tempos. A sua recuperação constitui uma operação delicada, porque obriga à desmontagem parcial da estrutura em madeira e a reconstituição total da sua fachada posterior. Esta intervenção torna-se, assim, num modelo de reabilitação e de incentivo ao investimento privado na regeneração urbana.

Em síntese, pode afirmar-se que cada projeto de Távora é uma obra única, adaptada aos clientes e que congrega criatividade, atenção ao sítio, rigor técnico e funcionalidade.

Obras

Unidade Residencial de Ramalde
Porto, 1952-60

Mercado de Santa Maria da Feira
Vila da Feira, 1954-59

Fotografia: wikipedia

Casa em Ofir
Ofir, 1956

Planta – Imagem UPorto

Parque Municipal da Quinta da Conceição – Pavilhão de Ténis
Matosinhos, 1957

Escola Primária do Cedro
Vila Nova de Gaia, 1958-60

 Alçados – Imagem: UPorto

Reabilitação do Convento/Pousada de Santa Marinha
Guimarães, 1972-85

Reabilitação do Centro Histórico de Guimarães – Casa da Rua Nova
Guimarães, 1985-87

Remodelação e ampliação do Museu Soares dos Reis
Porto, 1988-2001

 Esquisso – Imagem UPorto

Arranjo Urbanístico da Praça 8 de Maio
Coimbra, 1990

 Planta – Imagem UPorto

Anfiteatro do Inst. Politécnico de Viana do Castelo
Viana do Castelo, 1990-92

 Planta – Imagem UPorto

Departamento de Engenharia Civil da Universidade de Coimbra
Coimbra, 1991-2000

 Alçados – Imagem UPorto

Anfiteatro da Faculdade de Direito da Universidade de Coimbra
Coimbra, 1994-2000

Casa dos 24 – Recuperação dos Antigos Paços do Concelho
Porto, 1995-2003

Restauro do Palácio do Freixo
Porto, 1996-2003

Fotografia Wikipedia

Escola de Arquitetura da Universidade do Minho
Guimarães, 2004

Arranjo Urbanístico da Praça da Liberdade
Viana do Castelo, 2013

PrÉMIOS

  • Prémio Nacional de Arquitetura, em 1988, pela Requalificação da Pousada de Santa Marinha em Guimarães
  • Prémio de Arquitetura da Fundação Calouste Gulbenkian
  • Prémio “Europa Nostra” pela casa da Rua Nova em Guimarães 1985
  • Prémio Turismo e Património 85
  • Prémio de carreira da 1.ª Bienal de Arquitetura e Engenharia IberoAmericana de Madrid, em 1998.

Prémio Fernando Távora

Em homenagem ao arquiteto, a Ordem dos Arquitectos (OA-SRN), em 2005, instituiu o Prémio Fernando Távora que anualmente, atribui uma bolsa de viagem à melhor proposta de viagem apresentada por arquitetos inscritos na OA.

+INFO

Revisitar Fernando Távora, Documentário sobre Fernando Távora – Arquivo RTP

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Publicado em 2013.4.22 | Revisto e republicado em 2018.10.27

 

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