História das Cidades Portuguesas

Perspectiva da evolução das cidades em Portugal e dos diferentes modos de “fazer cidade” ao longo da história. 

Citânias

As primeiras “cidades” na Península Ibérica remontam à Idade do Ferro. Denominam-se castros ou citânias quando possuem maior dimensão, importância e são ocupadas de forma permanente. São povoados amuralhados, com casas de planta circular e que ocupam o topo dos montes para melhor defesa.

Existem diversos vestígios deste tipo de organização espacial principalmente no norte. São exemplos, a Citânia de Sanfins, a Citânia de Briteiros, em Guimarães [Citânia de Briteiros, e a Citânia de Santa Luzia, em Viana do Castelo.

Citânia de Briteiros
Citânia de Briteiros, Guimarães

A partir do século II a.C. com a ocupação romana e a movimentação das populações para o litoral estes povoados entram em declínio.

Cidade romana

Durante a romanização, a Península Ibérica foi dividida em três províncias. A Lusitânia, que integrava o território português a sul do Douro, a Tarraconensis, a norte e poente da península e a Baetica a sul.

romanização da peninsula iberica Divisão da península Ibérica durante a romanização

Entre as cidades romanas portuguesas destaca-se: Chaves (Aquae Flaviae), Braga (Bracara Augusta), Coimbra (Aeminium), Condeixa-a-Velha (Conímbriga), Santarém (Scalabis), Lisboa (Olissipo), Santiago do Cacém (Mirobriga), Évora (Ebora), Beja (Pax Julia) e Faro (Ossonoba).

Conímbriga Conímbriga, recriação histórica 2014 

A organização das cidades romanas seguem um traçado comum. São definidos dois eixos, que correspondem às duas principais vias. Um norte-sul, o cardo, e outro este-oeste, o decumanus. Em posição central, localiza-se o fórum, ou seja, o centro administrativo e religioso da cidade, a partir do qual a cidade se desenvolve. São igualmente projetados edifícios de lazer, termas, anfiteatros e edifícios de serviços, tais como mercados e bibliotecas. São também concebidas infraestruturas de abastecimento de água, construídas pontes e traçadas vias de comunicação por todo o território nacional.

Cidade medieval

Apesar da existência de cidades antes da formação da nacionalidade, é na Idade Média que as cidades portuguesas são fundadas. Correspondem às sedes de Diocese, sendo estas de norte para sul: Braga, Porto, Coimbra, Viseu, Guarda, Lamego, Lisboa, Évora e Silves.

A cidade medieval, cujo perímetro é definido pela muralha, está geralmente associada a um castelo ou mosteiro. O seu crescimento é feito de forma orgânica e sem planeamento. A partir do século XII a população urbana cresce e surgem novas zonas de povoamento fora do recinto muralhado. O elemento morfológico mais importante é a rua, porque as pessoas passavam muito tempo fora de casa. Os edifícios importantes, como as igrejas, funcionam como pólos dinamizadores, sendo as festas religiosas um grande acontecimento social.

Braga medieval Representação de Braga na Idade Média – Imagem Instituto Camões

Cidade renascentista

Durante o renascimento, em Itália são apresentados modelos teóricos de espaços urbanos ideais. O tratado de Vitruvio é relançado, descrevendo-se uma cidade ideal de forma pentagonal e muralhada. Alberti, outro arquiteto italiano, apresenta um manuscrito com uma série de regras a aplicar na construção do espaço urbano.

Em Portugal, Francisco de Holanda e António Rodrigues, influenciados pelos ideias renascentistas, escrevem sobre arquitetura e urbanismo. No entanto, os seus livros só seriam publicados séculos mais tarde.

Pode denotar-se, então, uma influência italiana no urbanismo. Contudo, em Portugal, como a maioria das cidades se encontrava consolidada era impossível a sua reconstrução de acordo com os novos princípios. Assim, as intervenções limitam-se a áreas restritas ou sistemas defensivos. São abertas novas ruas em Lisboa e Porto e empreendidas reformas urbanísticas em Braga.

Lisboa 1572
Lisboa numa cartografia de Georg Braun e Franz Hogenberg, de 1572, retocada e aguarelada mais tarde – imagem wikipedia

Ainda baseado nos princípios renascentistas, Luís Pimentel Serrão publica, em 1680, um tratado intitulado Méthodo Lusitanico de Desenhar as Fortifficaçoens das Praças Regulares e Irregulares.

No século XVII, são criadas cidades junto à fronteira, com um desenho mais regular e planificado e em que é visível a preocupação defensiva. É o caso de Almeida, Estremoz e Elvas.

Almeida
Planta de Almeida de 1764 (Imagem de domínio público)

Cidade barroca

O século XVIII caracteriza-se por um grande poderio económico de Portugal, devido ao ouro e pedras preciosas provenientes do Brasil. Promove-se então a construção de edifícios e obras emblemáticas.

A nível urbanístico, nas cidades existentes são rasgadas novas ruas e praças. Estas são palco de procissões, espetáculos e acontecimentos  populares.

Lisboa pombalina

A segunda metade do século XVIII é marcada pela reconstrução de Lisboa, após o terramoto de 1755. [Lisboa Pombalina] O terramoto, seguido de maremoto e de um violento incêndio que deflagrou por toda a cidade ocasionou mais de 10 mil vítimas e a devastação do património edificado. A área mais afetada foi a área da Baixa.

O Marquês de Pombal encarrega Manuel da Maia, engenheiro mor do reino, de elaborar um plano de reconstrução da cidade. São apresentadas cinco propostas, sendo a escolhida da autoria de Eugénio dos Santos e continuada por Carlos Mardel. Este projeto seguia as diretizes de Manuel da Maia.

Trata-se de um projeto com traçado regular onde existe uma hierarquia de vias. São, assim, definidas três ruas principais que articulam duas praças, Terreiro do Paço e Rossio. As edificações obedecem a um desenho tipo de fachada adaptado à rua onde se localizam.


Planta geral de Lisboa em 1833 – Imagem Museu de Lisboa

O impacto da industrialização nas cidades

O século XIX é marcado pela Revolução Industrial, que produz modificações profundas na fisionomia das cidades. O número de centros urbanos multiplica e nas cidades preexistentes dá-se um aumento da área edificada. Contudo, a instalação de fábricas altamente poluidoras em locais privilegiados, a explosão demográfica, as más condições habitacionais, a inexistência de infraestruturas, como redes de esgotos, levam a uma degradação da qualidade de vida nas cidades.

Em Portugal, durante a 1ª metade do século XIX, as invasões francesas e a revolução liberal contribuem para um atraso no processo de industrialização. Isto vai afetar, assim, a produção arquitetónica e o desenvolvimento urbano.

Apesar do processo de industrialização ser lento, as principais cidades portuguesas sofrem algumas alterações. Consolidam-se assim dois grandes centros urbanos, Lisboa e Porto. O crescimento de Lisboa está associado a ser a capital do reino e também à importância do seu porto marítimo. O desenvolvimento do Porto está ligado à produção de vinho do Porto que traz um grande crescimento económico, que é aplicado na construção urbana. Por um lado, a chegada de Nasoni, e por outro a acção de João de Almada como urbanista, introduzem grandes alterações na fisionomia da cidade do Porto.

Porto ClérigosSkyline do Porto com destaque para a torre dos Clérigos

Cidade oitocentista

Na 2ª metade do século XIX, a atividade urbanística intensifica-se, procurando-se resolver os problemas das cidades. A cidade portuguesa oitocentista apresentava os mesmos problemas das cidades europeias, embora a uma escala menor.

A população portuguesa concentra-se numa faixa litoral principalmente junto dos dois grandes centros Lisboa e Porto. Por outro lado, a introdução de transportes coletivos permite deslocações maiores, que até aí eram feitas a pé. Isto traduz-se num crescimento das periferias.

Nos finais do século XIX, o florescimento da burguesia permite o investimento privado no setor imobiliário. A sociedade começa a exercer uma pressão sobre o Governo para que este promova a renovação urbana, modernizando a imagem das cidades.

Em 1865, o Ministério das Obras Públicas lança a figura dos “Planos Gerais de Melhoramentos”. Estes tinham obrigatoriamente que ser elaborados para as principais cidades do país. Este diploma regulamenta assim questões ligadas à higiene, à circulação, à salubridade das edificações e ao arranjo do espaço público.

A nível de desenho urbano denota-se uma influência do urbanismo francês, em particular na criação de avenidas estruturantes nas principais cidades. São exemplos, em Lisboa, a Av. da Liberdade e, no Porto, a Av. dos Aliados. Em cidades de menores dimensões são traçadas as “Avenidas da Estação”.

Av. Liberdade sec xix
Av. da Liberdade, Lisboa – Imagem Museu de Lisboa

A ideologia do Estado Novo aplicada ao desenho urbano

O início do século XX marca a consolidação do urbanismo como disciplina autónoma. Em Portugal, o Ministro das Obras Públicas Duarte Pacheco cria, em 1934, os “Planos Gerais de Urbanização”. Estes devem ser aplicados a cidades com mais de 2500 habitantes. Pretende-se assim instalar infraestruturas e construir equipamentos. Simultaneamente quer transformar-se cidades de crescimento orgânico em urbes com uma imagem representativa da ideologia do Estado Novo.

As intervenções efetuadas pelo Estado Novo implicam expropriações de vastas áreas. São, assim, uma intervenção de grande escala e de carácter unitário. A destruição de parte da Alta de Coimbra, o seu centro histórico, para a instalação do campus universitário é um exemplo paradigmático deste tipo de operação urbanística.

Coimbra
Vista aérea da Alta de Coimbra onde se denota a clara diferença de malhas

A cidade moderna

Nos anos 50, em Portugal, verifica-se uma adesão ao movimento moderno. O desenho urbano denota os princípios formulados na Carta de Atenas. Assim, cria-se uma hierarquização de vias e quarteirões formados por blocos paralelos, ou torres.

Bairro das Estacas, Lisboa – Imagem: OA-SRS

“Novo urbanismo”

Posteriormente, a partir das décadas de 60/70 começam a surgir críticas à cidade moderna. Em particular quando este modelo é aplicado em larga escala, o que faz com que o conjunto se torne monótono. Outra crítica apontada é de que a construção em altura prejudica a relação do Homem com o meio envolvente.

Verifica-se então uma redescoberta da cidade histórica e das formas urbanas tradicionais. Os autores pós modernistas privilegiam assim o desenho de pormenor e a pequena escala, para conseguir ambientes qualificados e atraentes. Nas intervenções são preservados os edifícios de maior valor arquitetónico e procura-se respeitar a morfologia e as cérceas tradicionais.

A partir da década de 80 enceta-se uma nova etapa na forma de desenhar a cidade a que Garcia Lamas, autor do livro “Morfologia urbana e desenho da cidade”, chama novo urbanismo.

Verifica-se uma conciliação do Homem com a natureza e uma relação harmoniosa com o espaço construído. Em termos morfológicos são aplicados elementos da cidade tradicional tanto na reabilitação dos centros históricos como em novas realizações.

Os problemas da cidade contemporânea

A cidade atual apresenta problemas relacionados com a sua grande extensão e o uso massivo do automóvel. Há portanto um conflito entre peões e veículos. As vias rápidas, circulares externas e internas e IP’s são verdadeiros cortes na paisagem, constituindo-se como  limites e obstáculos da cidade.

Outro problema enfrentado pelas cidades é a especulação imobiliária e mais recentemente o aumento do turismo. Estes fatores levam a que as zonas centrais detenham um elevado valor de preço de solo e de construção por m2. As populações são então empurradas para a periferia e cidades limítrofes. Estas crescem em mancha de óleo, muitas vezes desordenadas, desqualificadas e com confronto de tipologias e escalas.

Face a estes problemas têm surgido planos de intervenção na cidade existente. Procura-se assim reabilitar as zonas centrais e promover uma distribuição equilibrada de habitação, comércio e serviços na malha urbana.

A Expo 98 como um ponto de viragem

A Expo 98 foi um marco importante na renovação urbana de grande escala promovida pelo Estado. Este programa no Parque das Nações permitiu a conversão de uma zona industrial desativada, junto ao Tejo, primeiro num parque de exposições e depois numa qualificada área residencial, de equipamentos comerciais, culturais e amplas áreas de lazer.


Parque das Nações, planta pós Expo98

Programas de apoio à regeneração urbana

Em 2000 foi lançado o programa Polis. Este veio  permitir a reabilitação urbana em muitas cidades portuguesas, contribuindo para criação de espaço público qualificado.

Em 2008 o polis litoral foi lançado com o objetivo de requalificar e valorizar a orla costeira. São recuperadas zonas de risco e áreas degradadas na faixa costeira, em particular no litoral norte.

Também a candidatura a Capital da Cultura de algumas cidades, como o Porto em 2001 e Guimarães em 2012, é uma forma de promover uma reabilitação urbana em larga escala.

A Casa da Música e as obras de requalificação urbana foram o maior legado da Capital Europeia da Cultura no Porto.

A cidade atual: que caminhos a seguir

Atualmente, com algum distanciamento temporal e crítico consegue-se avaliar os contributos dos vários estratos históricos e retirar lições a aplicar ao projeto da cidade atual.

Por outro lado, a cidade atual integra uma nova dimensão, a ecologia urbana. São assim valorizadas questões ambientais, como o aproveitamento de recursos naturais e a construção de edifícios inteligentes. Procura-se igualmente encontrar um equilíbrio entre o Homem e o Meio, entre o natural e o artificial. Surge portanto o conceito de ecourbanismo, isto é, o desenvolvimento de comunidades sustentáveis, em ambientes edificados harmónicos e equilibrados

Por último, uma nota, dado que a população portuguesa é predominantemente urbana, intervir na cidade é melhorar a qualidade de vida de todos nós.

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Publicado em 2012.06.25 | Revisto e republicado em 2018.11.10

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